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domingo, dezembro 02, 2012

Como voar segundo o Guia do Mochileiro das Galáxias

como voar“Há toda uma arte, ou melhor, um jeitinho para voar.
O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar.
Encontre um belo dia e experimente.
A primeira parte é fácil.
Ela requer apenas a habilidade de se jogar pra frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer.
Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão.
Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da maneira correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força.
Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade.
Um dos problemas é que você tem que errar o chão acidentalmente. Não adianta errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre quanto isso irá doer se você deixar de errar.
É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular.
Contudo, se você tiver a sorte de ficar distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola.
Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração.
Balance e flutue, flutue e balance.
Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto.
Não ouça nada que possam dizer nesse momento, porque dificilmente seria algo de útil.
Provavelmente dirão algo como: "Meu Deus, você não pode estar voando!"
É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.
Flutue cada vez mais alto.
Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois deixe-se levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.
NÃO ACENE PARA NINGUÉM.
Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir.
Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar o seu vôo, sua velocidade, como manobrar etc. O truque está em não pensar muito naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural.
Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda a certeza, você irá se atrapalhar - e se atrapalhar feio - em sua primeira tentativa.”

Retirado da coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

O homem que rege o Universo

_orestaurantenofimdouniverso.zoomTrecho extraído do volume dois d’O Guia do Mochileiro das Galáxias – O Restaurante no Fim do Universo.

A 150 metros dali, golpeada pela chuva torrencial, encontrava-se a nave Coração de Ouro.
Ao abrir-se a escotilha emergiram três figuras, curvadas sobre si mesmas para protegerem os rostos da chuva.
— Lá dentro? - gritou Trillian acima do barulho da chuva.
— Sim. – disse Zarniwoop.
— Naquela choupana?
— É.
— Que esquisito – disse Zaphod.
— Mas fica no meio do nada – disse Trillian. – E não deve ser o lugar certo. Não dá para reger o Universo de uma choupana.
Correram pela chuva forte e chegaram completamente ensopados à porta. Bateram. Estavam tremendo.
A porta se abriu.
— Olá? – disse o homem.
— Ah, desculpe – disse Zarniwoop –, tenho motivos para acreditar...
— É você que rege o Universo? – disse Zaphod.
O homem sorriu para ele.
— Tento não reger – disse. – Vocês estão molhados?
Zaphod olhou para ele, assombrado.
— Molhados? – gritou. Não parece que estamos molhados?
— É o que me parece – disse o homem –, mas vocês poderiam ter uma opinião completamente contrária a esse respeito. Se acharem que o calor os secará, é melhor entrarem.
Entraram.
Espiaram a cabana por dentro, Zarniwoop com aversão.  Trillian com interesse, Zaphod deliciado.
— Ei, ahn... – disse Zaphod – qual é o seu nome?
O homem olhou para eles em dúvida.
— Não sei. Por quê? Vocês acham que eu deveria ter um? Parece-me muito estranho dar um nome a um amontoado de vagas percepções sensoriais.
...
— Mas você sabe que existe um Universo inteiro lá fora! – gritou Zarniwoop. – Você não pode esquivar-se de suas responsabilidades dizendo que elas não existem!
O homem que rege o Universo pensou por um longo tempo enquanto Zarniwoop trepidava de raiva.
— Você tem muita certeza de seus fatos – disse por fim. – Eu não confiaria nos pensamentos de um homem que acha que o Universo, se é que existe um, é algo com o qual se pode contar.
Zarniwoop ainda trepidava, mas estava em silêncio.
— Eu apenas decido sobre o meu Universo – prosseguiu o homem calmamente. – Meu Universo são meus olhos e meus ouvidos. Qualquer coisa fora disso é boato.
— Mas você não crê em nada?
O homem sacudiu os ombros e apanhou seu gato.
­— Não entendo o que você que dizer com isso.
— Você não entende que as coisas que você decide nesta choupana afetam as vidas e os destinos de milhões de pessoas? Isto tudo está monstruosamente errado!
— Não sei. Nunca vi todas essas pessoas de que você fala. E nem você, suspeito. Elas existem apenas nas palavras que ouvimos. É loucura dizer que você sabe o que está acontecendo com as outras pessoas. Só elas sabem, se é que existem. Elas têm seus próprios Universos a partir de seus olhos e seus ouvidos.
Trillian disse:
— Acho que vou dar uma volta lá fora.
Saiu e foi andar na chuva.
— Você acredita que existam outras pessoas? – insistiu Zarniwoop.
— Não tenho opinião. Como posso saber?
— É melhor eu ir ver o que há com a Trillian – disse Zaphod, e saiu.
...
Lá dentro Zarniwoop continuava.
— Mas você não entende que as pessoas vivem ou morrem de acordo com suas palavras?
O homem que rege o Universo esperou o quanto pôde. Quando ouviu o som distante dos motores da nave sendo ligados, falou para encobri-lo.
— não tem nada a ver comigo – disse. – Não estou envolvido em nada que diga respeito a pessoas. O Senhor sabe que não sou um homem cruel.
— Ah – vociferou Zarniwoop –, você diz “o Senhor”. Você acredita em alguma coisa!
— Meu gato – disse o homem benignamente, pegando-o e acariciando-o. – Eu o chamo de Senhor. Sou bom para ele.
— Muito bem – disse Zarniwoop, pressionando. – Como você sabe que ele existe? Como você sabe que ele sabe que você é bom, ou que ele gosta daquilo que ele acha que seja a sua bondade?
— Eu não sei – disse o homem com um sorriso –, não tenho ideia. Simplesmente me agrada agir de uma certa maneira com o que me parece ser um gato. Você se comporta de outra maneira? Por favor, acho que estou cansado.
Zarniwoop suspirou completamente insatisfeito e olhou à sua volta.
— Onde estão os outros dois? – disse de repente.
— Que outros dois? – disse o homem que rege o Universo, recostando-se na poltrona e enchendo o copo de uísque.
— Beeblebrox e a garota! Os dois que estavam aqui!
— Não me lembro de ninguém. O passado é uma ficção para explicar...
— Esqueça – rosnou Zarniwoop e saiu correndo na chuva. Não havia nave. A chuva continuava a revolver a lama. Não havia sinal que mostrasse onde tinha estado a nave. Ele gritou na chuva. Virou-se e correu de volta para a choupana e encontrou-a trancada.
O homem que rege o Universo cochilava em sua poltrona. Algum tempo depois ele brincou com o lápis e o papel outra vez e ficou encantado ao descobrir como usar um deles para fazer uma marca no outro. Havia vários barulhos vindos do lado de fora, mas ele não sabia se eram reais ou não. Então passou uma semana falando com a mesa para ver como ela reagiria.

quarta-feira, junho 29, 2011

O Guia do Mochileiro…

hitchhikerMuito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.
Este planeta tem ― ou melhor, tinha ― o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.

Inicio do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams – Volume 1 de uma trilogia de 5.