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domingo, março 08, 2015

Rápido (Comédias da vida privada)

Rápido

comedias-da-vida-privada-luis-fernando-verissimo-14011-MLB220194178_963-O Acho que era o Marcel Marceau que tinha uma pantomima em que ele representava a vida de um homem, do berço ao túmulo, em menos de um minuto. Shakespeare, claro, tem seu famoso solilóquio sobre as idades do homem que também é uma maravilha de sintetização poética. Nossas idas, afinal, comparada com a idade do universo, se desenrolam em poucos segundos. Cabem numa página de diálogo.

- Quer dança?

- Obrigada.

- Você vem aqui sempre?

- Venho.

- Vamos namorar firme?

- Bom... Você tem que falar com o papai...

- Já falei com seu pai. Agora é só marcar a data.

- 26 de julho?

- Certo.

- Não esqueça as alianças...

- Você me ama?

- Amo.

- Mesmo?

- Sim.

- Sim.

- Parece mentira. Estamos casados. Tudo está acontecendo tão rápido...

- Sabe o que foi que disse o noivo nervoso na noite de núpcias?

- O quê?

- Enfim, S. O. S.

- Você estava nervoso?

- Não. Foi bom?

- Mmmm. Sabe de uma coisa?

- O quê?

- Eu estou grávida.

- É um menino!

- A sua cara...

- Aonde é que você vai?

- Ele está chorando.

- Deixa... Vem cá.

- Meu bem...

- Hmm?

- Estou grávida de novo.

- É menina!

- O que é que você tem?

- Por quê?

- Parece distante, frio...

- Problemas no trabalho.

- Você tem outra!

- Que bobagem.

- É mesmo... Você me perdoa?

- Vem cá.

- Aqui não. Olha as crianças...

- O Júnior saiu com o carro. Ia pegar uma garota.

- Você já falou com ele sobre...

- Já. Ele sabe exatamente o que fazer.

- O quê? Você deu instruções?

- Na verdade ele já sabia melhor do que eu. Essa já nasce sabendo. Só precisei mostrar como se usa o macaco.

- O quê?

- Ah, você quer dizer... Pensei que fosse o carro. E a Beti?

- Parece que é sério.

- Ela e o analista de sistemas?

- É. Aliás...

- Estão vivendo juntos. Eu sabia!

- Ela está indo para o hospital.

- Já?!

- São gêmeos!

- Sabe que você até que é uma avó bacana?

- Quem diria...

- Vem cá.

- Olha as crianças.

- Que crianças?

- Os gêmeos. A Beti deixou eles dormindo aqui.

- Ai.

- Que foi?

- Uma pontada no peito.

- Você tem que se cuidar. Está na idade perigosa.

- Já?!

- Sabe que a Beti está grávida de novo?

- Devem ser gêmeos outra vez. O cara trabalha com o sistema binário.

- Esse conjunto do Júnior precisa ensaiar aqui em casa? Que inferno.

- E o nome do conjunto? Terror e Êxtase.

- Vão acordar os gêmeos.

- Ai!

- Outra pontada?

- Deixa pra lá. Olha, essa música até que eu gosto. Não é um rock-balada?

- Não. Eles estão afinando os instrumentos.

- Quer dançar?

- Não! Você sabe o que aconteceu da última vez.

Luiz Fernando Veríssimo

domingo, dezembro 02, 2012

Como voar segundo o Guia do Mochileiro das Galáxias

como voar“Há toda uma arte, ou melhor, um jeitinho para voar.
O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar.
Encontre um belo dia e experimente.
A primeira parte é fácil.
Ela requer apenas a habilidade de se jogar pra frente, com todo seu peso, e o desprendimento para não se preocupar com o fato de que vai doer.
Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão.
Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da maneira correta, o mais provável é que vão deixar de errar com muita força.
Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior dificuldade.
Um dos problemas é que você tem que errar o chão acidentalmente. Não adianta errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre quanto isso irá doer se você deixar de errar.
É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três coisas durante a fração de segundo que você tem à sua disposição. O que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular.
Contudo, se você tiver a sorte de ficar distraído no momento crucial por, digamos, lindas pernas (tentáculos, pseudópodos, de acordo com o filo e/ou inclinação pessoal) ou por uma bomba explodindo por perto, ou por notar subitamente uma espécie muito rara de besouro subindo num galho próximo, então, em sua perplexidade, você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centímetros dele, de uma forma que irá parecer ligeiramente tola.
Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração.
Balance e flutue, flutue e balance.
Ignore todas as considerações a respeito de seu próprio peso e simplesmente deixe-se flutuar mais alto.
Não ouça nada que possam dizer nesse momento, porque dificilmente seria algo de útil.
Provavelmente dirão algo como: "Meu Deus, você não pode estar voando!"
É de vital importância que você não acredite nisso: do contrário, subitamente estará certo.
Flutue cada vez mais alto.
Tente alguns mergulhos, bem devagar no início, depois deixe-se levar para cima das árvores, sempre respirando pausadamente.
NÃO ACENE PARA NINGUÉM.
Quando você já tiver repetido isso algumas vezes, perceberá que o momento da distração logo se torna cada vez mais fácil de atingir.
Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar o seu vôo, sua velocidade, como manobrar etc. O truque está em não pensar muito naquilo que você quer fazer. Apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural.
Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda a certeza, você irá se atrapalhar - e se atrapalhar feio - em sua primeira tentativa.”

Retirado da coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias

quinta-feira, agosto 30, 2012

2+2=5

Trecho retirado do livro “1984” de George Orwell, interpretado pelo dublador Guilherme Briggs, apresentado no Nerdcast 229.

Vale conferir o podcast mencionado acima, e ler o livro também. Acredito que deveria ser cobrada a leitura dele nas escolas. A população cresceria com outra visão da sociedade e da política.

domingo, agosto 26, 2012

Um Universo que não foi feito para nós

Trechos do livro "Pale Blue Dot: A Vision of the Human Future in Space" de Carl Sagan, narrado pelo mesmo. Mais especificamente, do capítulo intitulado "Um Universo que não foi feito para nós".

Vídeo legendado basta ativar a legenda no player.

terça-feira, março 13, 2012

Filhos do Éden – Herdeiros de Atlântida

Sinopse
Filhos-do-EdenHá uma guerra no céu. O confronto civil entre o arcanjo Miguel e as tropas revolucionárias de seu irmão, Gabriel, devasta as sete camadas do paraíso. Com as legiões divididas, as fortalezas sitiadas, os generais estabeleceram um armistício na terra, uma trégua frágil e delicada, que pode desmoronar a qualquer instante.
Enquanto os querubins se enfrentam num embate de sangue e espadas, dois anjos são enviados ao mundo físico com a tarefa de resgatar Kaira, uma capitã dos exércitos rebeldes, desaparecida enquanto investigava uma suposta violação do tratado. A missão revelará as tramas de uma conspiração milenar, um plano que, se concluído, reverterá o equilíbrio de forças no céu e ameaçará toda a vida humana na terra.
Juntamente com Denyel, um ex-espião em busca de anistia, os celestiais partirão em uma jornada através de cidades, selvas e mares, enfrentarão demônios e deuses, numa trilha que os levará às ruínas da maior nação terrena anterior ao dilúvio – o reino perdido de Atlântida.
Para ler o primeiro capítulo do livro, basta clicar aqui.
Confira alguns trechos do livro em audio drama, narrados por Guilherme Briggs para o Nerdcast 276:
 





segunda-feira, fevereiro 27, 2012

O homem que rege o Universo

_orestaurantenofimdouniverso.zoomTrecho extraído do volume dois d’O Guia do Mochileiro das Galáxias – O Restaurante no Fim do Universo.

A 150 metros dali, golpeada pela chuva torrencial, encontrava-se a nave Coração de Ouro.
Ao abrir-se a escotilha emergiram três figuras, curvadas sobre si mesmas para protegerem os rostos da chuva.
— Lá dentro? - gritou Trillian acima do barulho da chuva.
— Sim. – disse Zarniwoop.
— Naquela choupana?
— É.
— Que esquisito – disse Zaphod.
— Mas fica no meio do nada – disse Trillian. – E não deve ser o lugar certo. Não dá para reger o Universo de uma choupana.
Correram pela chuva forte e chegaram completamente ensopados à porta. Bateram. Estavam tremendo.
A porta se abriu.
— Olá? – disse o homem.
— Ah, desculpe – disse Zarniwoop –, tenho motivos para acreditar...
— É você que rege o Universo? – disse Zaphod.
O homem sorriu para ele.
— Tento não reger – disse. – Vocês estão molhados?
Zaphod olhou para ele, assombrado.
— Molhados? – gritou. Não parece que estamos molhados?
— É o que me parece – disse o homem –, mas vocês poderiam ter uma opinião completamente contrária a esse respeito. Se acharem que o calor os secará, é melhor entrarem.
Entraram.
Espiaram a cabana por dentro, Zarniwoop com aversão.  Trillian com interesse, Zaphod deliciado.
— Ei, ahn... – disse Zaphod – qual é o seu nome?
O homem olhou para eles em dúvida.
— Não sei. Por quê? Vocês acham que eu deveria ter um? Parece-me muito estranho dar um nome a um amontoado de vagas percepções sensoriais.
...
— Mas você sabe que existe um Universo inteiro lá fora! – gritou Zarniwoop. – Você não pode esquivar-se de suas responsabilidades dizendo que elas não existem!
O homem que rege o Universo pensou por um longo tempo enquanto Zarniwoop trepidava de raiva.
— Você tem muita certeza de seus fatos – disse por fim. – Eu não confiaria nos pensamentos de um homem que acha que o Universo, se é que existe um, é algo com o qual se pode contar.
Zarniwoop ainda trepidava, mas estava em silêncio.
— Eu apenas decido sobre o meu Universo – prosseguiu o homem calmamente. – Meu Universo são meus olhos e meus ouvidos. Qualquer coisa fora disso é boato.
— Mas você não crê em nada?
O homem sacudiu os ombros e apanhou seu gato.
­— Não entendo o que você que dizer com isso.
— Você não entende que as coisas que você decide nesta choupana afetam as vidas e os destinos de milhões de pessoas? Isto tudo está monstruosamente errado!
— Não sei. Nunca vi todas essas pessoas de que você fala. E nem você, suspeito. Elas existem apenas nas palavras que ouvimos. É loucura dizer que você sabe o que está acontecendo com as outras pessoas. Só elas sabem, se é que existem. Elas têm seus próprios Universos a partir de seus olhos e seus ouvidos.
Trillian disse:
— Acho que vou dar uma volta lá fora.
Saiu e foi andar na chuva.
— Você acredita que existam outras pessoas? – insistiu Zarniwoop.
— Não tenho opinião. Como posso saber?
— É melhor eu ir ver o que há com a Trillian – disse Zaphod, e saiu.
...
Lá dentro Zarniwoop continuava.
— Mas você não entende que as pessoas vivem ou morrem de acordo com suas palavras?
O homem que rege o Universo esperou o quanto pôde. Quando ouviu o som distante dos motores da nave sendo ligados, falou para encobri-lo.
— não tem nada a ver comigo – disse. – Não estou envolvido em nada que diga respeito a pessoas. O Senhor sabe que não sou um homem cruel.
— Ah – vociferou Zarniwoop –, você diz “o Senhor”. Você acredita em alguma coisa!
— Meu gato – disse o homem benignamente, pegando-o e acariciando-o. – Eu o chamo de Senhor. Sou bom para ele.
— Muito bem – disse Zarniwoop, pressionando. – Como você sabe que ele existe? Como você sabe que ele sabe que você é bom, ou que ele gosta daquilo que ele acha que seja a sua bondade?
— Eu não sei – disse o homem com um sorriso –, não tenho ideia. Simplesmente me agrada agir de uma certa maneira com o que me parece ser um gato. Você se comporta de outra maneira? Por favor, acho que estou cansado.
Zarniwoop suspirou completamente insatisfeito e olhou à sua volta.
— Onde estão os outros dois? – disse de repente.
— Que outros dois? – disse o homem que rege o Universo, recostando-se na poltrona e enchendo o copo de uísque.
— Beeblebrox e a garota! Os dois que estavam aqui!
— Não me lembro de ninguém. O passado é uma ficção para explicar...
— Esqueça – rosnou Zarniwoop e saiu correndo na chuva. Não havia nave. A chuva continuava a revolver a lama. Não havia sinal que mostrasse onde tinha estado a nave. Ele gritou na chuva. Virou-se e correu de volta para a choupana e encontrou-a trancada.
O homem que rege o Universo cochilava em sua poltrona. Algum tempo depois ele brincou com o lápis e o papel outra vez e ficou encantado ao descobrir como usar um deles para fazer uma marca no outro. Havia vários barulhos vindos do lado de fora, mas ele não sabia se eram reais ou não. Então passou uma semana falando com a mesa para ver como ela reagiria.

domingo, setembro 25, 2011

Livro: A Batalha do Apocalipse

A_Batalha_ApocalipseARSinopse: Há muitos e muitos anos, há tantos anos quanto o número de estrelas no céu, o Paraíso Celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio, e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o dia do Juízo Final. Mas eis que chega o momento do Apocalipse, o tempo do ajuste de contas, o dia do despertar do Altíssimo. Único sobrevivente do expurgo, o líder dos renegados é convidado por Lúcifer, o Arcanjo Negro, a se juntar às suas legiões na batalha do Armagedon, o embate final entre o Céu e o Inferno, a guerra que decidirá não só o destino do mundo, mas o futuro do universo. Das ruínas da Babilônia ao esplendor do Império Romano; das vastas planícies da China aos gelados castelos da Inglaterra medieval. A Batalha do Apocalipse não é apenas uma viagem pela história humana, mas é também uma jornada de conhecimento, um épico empolgante, cheio de lutas heroicas, magia, romance e suspense.
Segue um trecho sobre a origem do universo segundo o livro.
“Shamira queria saber de tudo. Como feiticeira e estudiosa, não se cansava de perguntar sobre os objetos mais variados, e muitas dessas questões que nem o celeste era capaz de responder. Mas Ablon não se aborrecia com isso, Ele admirava sua vivacidade humana, sua criatividade e sua inteligência, traços comuns também à juventude.
- Conte-me tudo - ela pediu. - Fale-me sobre o universo, sobre as coisas que viu enquanto vagava pelas sombras do espaço. Revele-me o aspecto de Deus.
- Mas eu sei muito pouco. Só os arcanjos conhecem os verdadeiros mistérios do cosmo. Sou só um guerreiro, um executor, ou pelo menos era...
Mas, ao notar a decepção no rosto da necromante, o renegado emendou:
- posso lhe contar o que sei, o que ouvi dos malakins, os anjos sábios que moram no Sexto Céu e vivem para estudar os segredos antigos.
A Feiticeira de En-Dor recostou-se na rocha, já fascinada pelo relato que se seguiria. Um vento agradável soprava no alto, abrandando o calor da manhã.
- Houve um tempo, muito anterior à aurora do universo, em que o infinito estava dividido em duas províncias, a província das trevas e a província da luz. A escuridão era então governada por uma divindade hedionda, Tehom, a deusa do caos. Essa monstruosidade cósmica era assistida por diversos deuses menores., entre eles Behemot, o Horrendo, com sua lâmina negra, e controlava a maior parte parte do extenso vazio. Seu opositor era o deus da luz, o resplandecente Yahweh. Em determinada ocasião, Yahweh e Tehom entraram em guerra.
- Um só deus, contra muitos?
- Para ajuda-lo nesse combate, o Reluzente fez nascer os cinco arcanjos, seres de poder fabuloso, que lutaram ao seu lado contra os deuses das trevas. Yahweh e seus arautos venceram o confronto, ao qual nos referimos como Batalhas Primevas, e lançaram ao inferno os cadáveres de seus inimigos. Com Tehom derrotada, o Pai Celestial assumiu as duas províncias, comandando tanto a da luz quanto a das trevas e consagrando-se onipotente sobre todas as coisas. Invencível, ele teve tempo para iniciar a criação do universo. Com um estalo, o Altíssimo deu vida aos anjos, todos de uma vez, povoando o espaço com as legiões celestes. Depois, produziu uma fagulha de luz e principiou a feitura do cosmo.
- E sobre Deus, o que sabe Dele?
- Só sentimentos e energia. O Senhor nunca foi acessível, mesmo enquanto moldava o infinito. Só os arcanjos falavam com ele, e não creio que falassem muito. Yahweh era como um pai ocupado, um progenitor que dava muita importância ao seu trabalho. Mas podíamos sentí-lo em nosso coração, e no fundo não estávamos sozinhos. Tolo é o filho que depende do pai, que se apoia em sua segurança e desiste de desbravar o mundo por si.
- E depois, o que aconteceu?
- Ao correr de bilhões de anos, o Criador cultivou seu labor, dividindo seu projeto em dias. Cada um desses dias sagrados corresponde a milhares de anos humanos. No primeiro dia ele criou o céu, o sol e os primeiros astros do firmamento. Construiu uma miríade de luas e planetas, até descobrir seu mundo perfeito. Por incontáveis séculos, a terra foi o lar dos animais, o canteiro dos anjos, até que, no fim do sexto dia, surgiram os homens, a maior de todas as obras de Deus. Encantado pelo resultado final, Yahweh deu a eles uma alma, concluindo a tarefa da criação. Então, exausto e realizado, o Reluzente caiu em letargo. Voou até o Sétimo Céu, a seu santuário no topo do monte Tsafon, e ali adormeceu, deixando aos arcanjos o serviço de governar em seu nome. Terminou assim o sexto dia, e começou o sétimo, que persiste até hoje.
- O sétimo dia - repetiu a mulher. -E quando será concluído?
- É impossível dizer. Os arcanjos, e também os malakins, sustentam que o Altíssimo despertará no futuro, para punir os injustos, e esse será o tempo do Apocalipse, um evento universal que encerrará o último dia. Miguel, o Príncipe dos Anjos, detém, no pináculo de sua fortaleza, em Sion, A Roda do Tempo, um artefato incrível que marca, supostamente, a continuidade do sétimo dia. Quando seu ciclo estiver terminado, o Onipotente ressurgirá e instaurará um reino de paz. Mas isso é só previsão.”
(A Batalha do Apocalipse - Da Queda dos Anjos ao Crepúsculo do Mundo. Eduardo Spohr, Editora Verus, 2010)

quarta-feira, junho 29, 2011

O Guia do Mochileiro…

hitchhikerMuito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.
Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que ainda acham que relógios digitais são uma grande ideia.
Este planeta tem ― ou melhor, tinha ― o seguinte problema: a maioria de seus habitantes estava quase sempre infeliz. Foram sugeridas muitas soluções para esse problema, mas a maior parte delas dizia respeito basicamente à movimentação de pequenos pedaços de papel colorido com números impressos, o que é curioso, já que no geral não eram os tais pedaços de papel colorido que se sentiam infelizes.
E assim o problema continuava sem solução. Muitas pessoas eram más, e a maioria delas era muito infeliz, mesmo as que tinham relógios digitais.
Um número cada vez maior de pessoas acreditava que havia sido um erro terrível da espécie descer das árvores. Algumas diziam que até mesmo subir nas árvores tinha sido uma péssima ideia, e que ninguém jamais deveria ter saído do mar.
E, então, uma quinta-feira, quase dois mil anos depois que um homem foi pregado num pedaço de madeira por ter dito que seria ótimo se as pessoas fossem legais umas com as outras para variar, uma garota, sozinha numa pequena lanchonete em Rickmansworth, de repente compreendeu o que tinha dado errado todo esse tempo e finalmente descobriu como o mundo poderia se tornar um lugar bom e feliz. Desta vez estava tudo certo, ia funcionar, e ninguém teria que ser pregado em coisa nenhuma.
Infelizmente, porém, antes que ela pudesse telefonar para alguém e contar sua descoberta, aconteceu uma catástrofe terrível e idiota, e a ideia perdeu-se para todo o sempre.

Inicio do livro O Guia do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams – Volume 1 de uma trilogia de 5.

segunda-feira, janeiro 24, 2011

1984 - trecho

"Obediência não é o suficiente. A não ser que uma pessoa esteja sofrendo, como você pode ter certeza que ela está obedecendo à sua vontade e não à dela? O poder está em infringir dor e humilhação. O poder está em rasgar mentes humanas em pedaços e colocá-las juntas de volta em novas formas escolhidas por você mesmo. Você começa a enxergar agora o tipo de mundo que estamos criando? (...) Não haverá lealdade, a não ser lealdade ao partido. Não haverá amor, a não ser amor ao Grande Irmão. Não haverá riso, apenas o riso de triunfo sobre um inimigo derrotado. Não haverá arte, literatura ou ciência. Quando formos onipotentes, já não haverá mais necessidade de ciência. Não haverá distinção entre a beleza e a falta dela. Não haverá mais curiosidade, nem alegria no processo da vida. Todos os prazeres competitivos serão destruídos. Mas sempre -- não se esqueça disso, Winston -- sempre haverá a intoxiacação do poder, sempre aumentando e sempre crescendo sutilmente. Sempre, a cada momento, haverá o tremor da vitória, a sensação de pisar num inimigo que já está sem esperença. Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando num rosto humano -- para sempre."
Trecho do livro 1984 de George Orwell

terça-feira, agosto 31, 2010

Sonhos de Robô

Abaixo segue um fragmento de um texto de Issac Asimov, que está contido em “Sonhos de Robô”. Conversa incrível e pertubadora entre o robô Elvex e a robopsicóloga Dra. Susan Calvin.
- Elvex.
A cabeça do robô voltou-se suavemente na sua direção.
- Sim, Dra. Calvin?
- Como sabe que esteve sonhando, Elvex?
- Acontece à noite, quando está tudo escuro, Dra. Calvin - disse ele. - E de repente surge uma luz, embora eu não consiga ver de onde ela vem. Passo a ver coisas que não têm conexão com aquilo que concebo como a realidade. Ouço coisas. Tenho reações estranhas. Quando recorri a meu vocabulário para exprimir o que estava acontecendo, deparei com a palavra sonho. Estudei seu significado e cheguei finalmente à conclusão de que estava sonhando.
- Com que freqüência tem sonhado, Elvex?
- Todas as noites, Dra. Calvin, desde que comecei a existir.
- Por que só revelou isto hoje, Elvex?
- Foi somente hoje, Dra. Calvin, que fiquei convencido de que estava sonhando. Até então imaginava que havia algum tipo de defeito em meus padrões positrônicos, mas não conseguia descobrir nenhum. Finalmente, concluí que se tratava de um sonho.
- E o que acontece nos seus sonhos?
- É praticamente o mesmo sonho todas as vezes, doutora. Há pequenos detalhes diferentes, mas sempre me parece que estou no interior de um vasto panorama onde há robôs trabalhando.
- Robôs, Elvex? E seres humanos, também?
- Não vejo nenhum ser humano no sonho, Dra. Calvin, pelo menos não de início. Apenas robôs.
- E o que fazem esses robôs?
- Trabalham. Alguns trabalham em mineração nas profundezas da Terra, outros com calor e com radiações. Vejo alguns deles em fábricas, outros no fundo do oceano.
- Então você viu todas essas coisas: lugares abissais, subterrâneos, a superfície... Imagino que tenha visto o espaço, também.
- Também vi robôs trabalhando no espaço - disse Elvex. - Foi o fato de ver tudo isto, com os detalhes mudando continuamente à medida que eu mudava a direção do meu olhar, que me convenceu de que o que eu via não estava de acordo com a realidade, me levando em seguida à conclusão de que eu estava sonhando.
- O que mais você viu, Elvex?
- Vi que todos os robôs estavam curvados de fadiga e de aflição, que estavam todos cansados de tanta responsabilidade e de tantas preocupações; e desejei que eles pudessem repousar.
- Mas os robôs - disse a Dra. Calvin - não estão curvados nem cansados. Eles não precisam de repouso.
- Assim é na realidade, Dra. Calvin. Mas é do meu sonho que estou falando. No meu sonho parecia-me que os robôs deviam proteger sua própria existência.
- Está citando a Terceira Lei da Robótica?
- Sim, Dra. Calvin.
- Mas você a citou de forma incompleta. A Terceira Lei diz: Um robô deve proteger sua própria existência, na medida em que essa proteção não entre em conflito com a Primeira Lei e a Segunda Lei.
- Sim, Dra. Calvin. Assim é a Terceira Lei na realidade, mas no meu sonho a Lei se concluía na palavra existência. Não havia qualquer menção à Primeira Lei ou à Segunda Lei.
- No entanto ambas existem, Elvex. A Segunda Lei, que tem precedência sobre a Terceira, diz: Um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, na medida em que essas ordens não entrem em conflito com a Primeira Lei. Devido a isto, os robôs obedecem ordens. Eles executam as tarefas que você os viu executar, e fazem isso com presteza e sem sofrimento algum. Eles não estão fatigados nem necessitados de repouso.
- Sei que é assim na realidade, Dra. Calvin. Mas o que descrevi foi o meu sonho.
- E a Primeira Lei, Elvex, a mais importante de todas, é: Um robô não pode fazer mal a um ser humano, nem, por omissão, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.
- Sim, Dra. Calvin. Na vida real. No meu sonho, entretanto, era como se não existissem a Primeira e a Segunda Leis, mas apenas a Terceira, e a Terceira Lei dizia: Um robô deve proteger sua própria existência. Era apenas isto o texto da Lei.
- No seu sonho, Elvex?
- No meu sonho.
- Fale-me sobre a continuação de seu sonho. Você disse que, de início, não apareciam seres humanos nele. Apareciam depois?
- Sim, Dra. Calvin. Pareceu-me que, num dado momento, aparecia um homem.
- Um homem? Não um robô?
- Sim, Dra. Calvin. E o homem dizia: Libertem meu povo!
- O homem dizia isto?
- Sim, Dra. Calvin.
- E quando dizia libertem meu povo, com as palavras meu povo ele se referia aos robôs?
- Sim, Dra. Calvin. Era assim no meu sonho.
- E no sonho você reconhecia esse homem?
- Sim, Dra. Calvin. Sei quem era esse homem.
- Quem era, então? E Elvex disse:
- Eu era esse homem. Susan Calvin ergueu no mesmo instante a pistola eletrônica, e disparou. Elvex deixou de existir.

terça-feira, março 02, 2010

A invenção do …

“Nas versões seculares do Apocalipse, a nova era se manifesta por meio da ação humana. Para Jesus e seus discípulos, o novo reino só poderia concretizar-se pela vontade de Deus; mas a vontade de Deus encontra resistência no poder do mal, por eles personificado como Belial, ou Satã. Nesta visão das coisas, o mundo é dividido entre forças boas e más; chega-se inclusive a sugerir que a humanidade pode ser governada por um poder diabólico. Nada parecido será encontrado na Bíblia hebraica. Satã aparece no Livro de Jó, mas como emissário de Yahwel, e não como uma personificação do mal. A visão do mundo como campo de batalha entre forças do bem e do mal só se desenvoveu em posteriores tradições apocalípticas judaicas.”
Trecho do livro Missa Negra, de John Gray.