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domingo, março 08, 2015

Rápido (Comédias da vida privada)

Rápido

comedias-da-vida-privada-luis-fernando-verissimo-14011-MLB220194178_963-O Acho que era o Marcel Marceau que tinha uma pantomima em que ele representava a vida de um homem, do berço ao túmulo, em menos de um minuto. Shakespeare, claro, tem seu famoso solilóquio sobre as idades do homem que também é uma maravilha de sintetização poética. Nossas idas, afinal, comparada com a idade do universo, se desenrolam em poucos segundos. Cabem numa página de diálogo.

- Quer dança?

- Obrigada.

- Você vem aqui sempre?

- Venho.

- Vamos namorar firme?

- Bom... Você tem que falar com o papai...

- Já falei com seu pai. Agora é só marcar a data.

- 26 de julho?

- Certo.

- Não esqueça as alianças...

- Você me ama?

- Amo.

- Mesmo?

- Sim.

- Sim.

- Parece mentira. Estamos casados. Tudo está acontecendo tão rápido...

- Sabe o que foi que disse o noivo nervoso na noite de núpcias?

- O quê?

- Enfim, S. O. S.

- Você estava nervoso?

- Não. Foi bom?

- Mmmm. Sabe de uma coisa?

- O quê?

- Eu estou grávida.

- É um menino!

- A sua cara...

- Aonde é que você vai?

- Ele está chorando.

- Deixa... Vem cá.

- Meu bem...

- Hmm?

- Estou grávida de novo.

- É menina!

- O que é que você tem?

- Por quê?

- Parece distante, frio...

- Problemas no trabalho.

- Você tem outra!

- Que bobagem.

- É mesmo... Você me perdoa?

- Vem cá.

- Aqui não. Olha as crianças...

- O Júnior saiu com o carro. Ia pegar uma garota.

- Você já falou com ele sobre...

- Já. Ele sabe exatamente o que fazer.

- O quê? Você deu instruções?

- Na verdade ele já sabia melhor do que eu. Essa já nasce sabendo. Só precisei mostrar como se usa o macaco.

- O quê?

- Ah, você quer dizer... Pensei que fosse o carro. E a Beti?

- Parece que é sério.

- Ela e o analista de sistemas?

- É. Aliás...

- Estão vivendo juntos. Eu sabia!

- Ela está indo para o hospital.

- Já?!

- São gêmeos!

- Sabe que você até que é uma avó bacana?

- Quem diria...

- Vem cá.

- Olha as crianças.

- Que crianças?

- Os gêmeos. A Beti deixou eles dormindo aqui.

- Ai.

- Que foi?

- Uma pontada no peito.

- Você tem que se cuidar. Está na idade perigosa.

- Já?!

- Sabe que a Beti está grávida de novo?

- Devem ser gêmeos outra vez. O cara trabalha com o sistema binário.

- Esse conjunto do Júnior precisa ensaiar aqui em casa? Que inferno.

- E o nome do conjunto? Terror e Êxtase.

- Vão acordar os gêmeos.

- Ai!

- Outra pontada?

- Deixa pra lá. Olha, essa música até que eu gosto. Não é um rock-balada?

- Não. Eles estão afinando os instrumentos.

- Quer dançar?

- Não! Você sabe o que aconteceu da última vez.

Luiz Fernando Veríssimo

sexta-feira, maio 30, 2014

quarta-feira, julho 10, 2013

O Inferno dos Ateus

Um ateu morre e vai para o céu. Chegando lá é recepcionado por São Pedro:

— Hummm... – Lendo o livro da vida pregressa do ateu – Infelizmente meu filho, você não pode adentrar no reino celestial. Você, desde jovem, declarou-se ateu. Até mesmo no leito de morte, você ficou firme no seu ateísmo. Lugar de ateu é no Inferno.

Resignado, o ateu desce às profundezas abissais em procura da entrada do Inferno. Lá chegando tem um choque. A entrada do Inferno parece-se com aqueles grandes cassinos de Las Vegas. Logo na entrada, lindas mulheres recepcionam o ateu.

Extremamente surpreso o ateu adentra no Inferno e é recebido por um homem elegantemente vestido com um terno branco e uma flor no bolso do paletó.

— Seja bem-vindo, meu grande amigo! – Diz efusivamente – Eu sou Satanás, seu anfitrião por toda a eternidade e qualquer coisa que você queira é só pedir diretamente para mim ou para aquelas lindas mulheres. – Abaixando a voz – A ruiva de vestido preto vai te levar à loucura.

A imagem do inferno era fabulosa: uma longa pradaria onde o comum era a relva baixa e flores. Ao fundo uma pequena seqüência de montanhas.

Percebia-se um pequeno rio à esquerda, onde o ateu reconheceu Nietzsche e Voltaire, com varas de pescar em uma mão e um copo de vinho na outra. Riam alto! À direita, num restaurante com uma enorme varanda, o ateu discerniu somente numa mesa Thomas Paine, Robert Ingersoll e Thomas Jefferson, este último acenando e apontando para um livro em sua mão. Era o último livro de Richard Dawkins.

Confuso, desnorteado, o ateu não consegue entender o que está acontecendo. Só ouve o Satanás ao seu lado, falando como se fossem dois grandes amigos tomando cerveja num barzinho. E ele não parava de falar:

— Meu amigo, aqui você poderá fazer tudo o que você sempre quis. Nada é proibido, desde que você obtenha prazer. – Acenando para um homem que passava – Oi Giordano!

O homem retorna o cumprimento. O ateu curioso pergunta:

— Aquele era Giordano Bruno?

— Hã? Ahh… sim! Desculpe-me por não apresentá-lo, mas não se preocupe, pois irá conhecê-lo nas noites de quinta-feira. Todas as quintas fazemos jogatina, após o jogo de futebol. O único que não joga é o Karl Marx.

De repente, interrompendo a conversa, o céu fica escuro com nuvens negras e ventos fortes, com descargas de relâmpagos e trovões que parecem anunciar o dia do Juízo Final.

O ateu vê que a pradaria, outrora linda, virou uma fossa abissal que expelia de suas entranhas, labaredas sulfurosas, como línguas demoníacas.

No meio do céu tempestuoso, um homem aparece, gritando loucamente e ardendo em chamas, caindo diretamente na fossa aberta no chão. Tão logo o homem é engolido pelas chamas, tudo volta ao que era antes. A pradaria, Nietzsche e Voltaire no rio e Satanás não parando de falar, como se nada tivesse acontecido.

Perplexo pelo o que viu e não se contendo em curiosidade perante a passividade de Satanás o ateu pergunta:

— Que porra foi isto?

Satanás responde:

— Era um evangélico. Eles preferem o Inferno desta maneira.

terça-feira, julho 31, 2012

segunda-feira, março 29, 2010